Bens Que Vêm Por Mal

by Daniel Catarino

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  • Compact Disc (CD)

    Capa de cartão com ilustrações de Cristina Viana (www.acristinafaz.com)

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about

“Bens Que Vêm por Mal é a caixa de ritmos transportada na alcofa. São as gastas luzes de néon a definhar para sempre, penduradas na fachada do café central de uma qualquer aldeia esquecida. É a excursão que partiu de Cabeção rumo ao Cristo-Rei mas que acabou no Lux, porque havia cogumelos no parque de merendas.

Este mostruário de canções consegue encapsular, em coisa de vinte minutos, o mundo: vai da crítica corrosiva, pontuada pela perspicácia afiada do autor, à narrativa tremendamente visual de inquietantes histórias tecidas com mestria." - João Baião (Amanita Ponderosa)
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"Bens Que Vêm Por Mal é um trabalho sofisticado na forma como engloba a música electrónica, por vezes até dançável, com um universo muito português de religião, tragédia, fado e adultério. Viajamos por histórias de carpideiras promíscuas que vendem caixões e saladeiras em cemitérios, meninas loucas que depois de orgias atiram os seus parceiros sexuais para um poço fundo, pastores que maltratam os filhos e apregoam o regresso de Salazar como um D. Sebastião para a violência doméstica e casas abandonadas que revelam diários de paranóias e jazigos de crianças.

No meio deste universo de uma lírica extremamente rica e mordaz, somos presenteados com ambientes reminiscentes de uns Nine Inch Nails ou The Knife, com algumas pitadas de psicadelismo e laivos do pop nacional dos anos 80, de onde certamente se destaca Variações como influência maior. A música portuguesa agradece este reforço." - António Melo
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Uma edição Capote Música
www.capotemusica.weebly.com
www.facebook.com/capotemusica

credits

released 01 September 2014

Músicas, letras e produção por Daniel Catarino.
Masterização por Joel Figueiredo.
Grafismos e título do disco por Cristina Viana.

Uma edição Capote Música: www.capotemusica.weebly.com

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Track Name: De Passarinho a Condor
DE PASSARINHO A CONDOR

Livrei-me da consternação
Porque a memória não é vida
E a combalida emoção
Não é radar de gente ferida

Prego a prego
Taco a taco
Eu enlaço o embaraço
Viro do avesso a dor

Prego a prego
Taco a taco
Eu refaço-me num passo
De passarinho a condor

Fiquei de caras com o fim
Inventei um outro começo
Dedicado a saber de mim
E a cultivar-me por apreço

Letra e música: Daniel Catarino
Track Name: Violência e Fado
VIOLÊNCIA E FADO

Havia uma pobre mulher
Que guardava novilhos
Tinha um cajado na mão
E batia nos filhos

Violência e fado
Não ficam nada bem
Não ficam nada bem

Educados à força
Na cabeça demente
De um homem que batia
No que via à frente

Violência e fado
Não ficam nada bem

Ao domingo na missa
Pediam clemência
Tapados no esplendor
Do manto da aparência

Violência e fado
Não ficam nada bem
Não ficam nada bem

Dantes é que era bom
Dizem os velhos do lar
No paraíso machista
De Oliveira Salazar

Venha porrada e mau viver
Quero porrada e mau viver
Dá-me porrada e mau viver
Quero porrada e mau viver

Eram tempos de glória
Diz a falta de memória

Violência e fado
Não ficam nada bem
Não ficam nada bem

Letra e música: Daniel Catarino
Track Name: Ídolo de Karaoke
ÍDOLO DE KARAOKE

Ídolo de karaoke
Vens a reboque
Nas páginas dos jornais

És como o papagaio
Forte operário
Na cópia de originais

Foste operado ao ego
Tens um emprego
No ramo da imitação

E o triunfo do nada
Dá-te uma entrada
Na festa da ilusão

Na fábrica do que é nulo
És um casulo
Sem borboleta nem seda

Leãozinho amestrado
Foste enganado
Esperas o que nunca chega

Tens a alma filtrada
Segues a estrada
Do que já aconteceu

És Amália sem fado
Estás agarrado
A um talento que nunca foi teu

Letra e música: Daniel Catarino
Track Name: Adultério na Igreja
ADULTÉRIO NA IGREJA

Pedir perdão
É o azeite da paixão
Na salada de ilusão
Que é sentires-te perdoada
Com a boca envinagrada
Pedir perdão é não dar nada

Dizer talvez
É o jeito português
De evitar a acidez
Das azedas carpideiras
No cemitério há feiras
Vendem-se caixões e saladeiras

Cimentado o cemitério
Comete-se adultério na igreja
Que não aleija tanto a fé
No café

Dizer o que se é
É não ser o que se diz
É pimenta no nariz
Que se espalha nos sentidos
As abelhas sem zumbidos
Fazem mel da cera de ouvidos

Pedir perdão
É dizer que não fui eu
É queimar um bom ateu
E aquecer-se na fogueira
É errar a vida inteira
E pedir perdão por brincadeira

Letra e música: Daniel Catarino
Track Name: As Meninas Loucas da Montanha
AS MENINAS LOUCAS DA MONTANHA

As meninas loucas da montanha
Fazem festas, não convidam ninguém
Atiram pedras aos comboios
E só ouvem o que lhes convém

Com as suas mini-saias transparentes
Vão à missa seduzir os crentes
Mostram-lhe os seios e tocam-se entre pernas
Lambem os pés da estátua do mecenas

Foi ali que eu as vi tão belas
Entre estrelas de Hollywood e Cinderelas
Calçavam botas de borracha pretas
Vestido leve que usavam sem cuecas

Perguntei o que faziam ali
Responderam que esperavam por mim
E riram como loucas as três
Beijaram-me na boca à vez

Tiraram a roupa peça a peça
Eu despi-me logo muito à pressa
Deitamo-nos na terra molhada
E fizemos amor em manada

Riram baixinho no final da festa
E eu levei três pancadas na testa
Amordaçaram-me a boca com um trapo
Senti-me a cair num buraco

Aterrei num poço profundo
Tudo em que tocava estava imundo
Livrei-me da mordaça e gritei
Mordeu-me a ratazana que pisei

As meninas espreitaram do topo
Ouviu-se o eco de um riso louco
Fecharam o alçapão e fez-se escuro
Eu com pedras raspava contra o muro

Desmaiei e acordei em sobressalto
As meninas loucas riam bem alto
Com o corpo ferido e deformado
Foi ali que morri esfomeado

Letra e música: Daniel Catarino
Track Name: Os Meninos Loucos da Planície
OS MENINOS LOUCOS DA PLANÍCIE

Ao descer a avenida com a boca toda ferida
Descobri um mistério por resolver
Encontrei um silêncio a rondar o comércio
Que fechou quando ninguém estava a ver

Gente pobre é gente fraca
Candelabros de ouro e prata no chão

Ao passar numa porta a ranger toda torta
Quis entrar nas ruínas de um burguês
Ao abrir um buraco descobri um palácio
Com sinais de luxuosa altivez

Deixei-me cair de corpo
Sobre um manto de borboto no chão

Restos de camas de rede e pinturas na parede
De famílias que sorriam num altar
Um baú cheio de jóias e um diário de paranóias
De um jovem obrigado a casar

A madeira bem queimada
Partiu-se ao subir a escada e eu caí

Encontrei uma cave, o tecto preso numa trave
Que cedeu e caiu junto aos meus pés
Ao sentir um vento rijo encontrei um esconderijo
Que servia de jazigo de bebés

Quis fugir dali para fora
Tentei dar um nó na corda do estendal

Vi no chão uma pintura, por detrás da moldura
Estava um texto que me pôs logo a tremer
"Quem não sabe ao que vem não verá mais ninguém
Aqui chegou e aqui irá morrer"

O telhado desabou
Ali mesmo me enterrou e eu morri

Letra e música: Daniel Catarino