Panorama De Uma Vida Anormal (LP)

by Daniel Catarino

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  • CD "Panorama de uma Vida Anormal" (Jewel case c/ livro de letras + 2 faixas bónus)
    Compact Disc (CD) + Digital Album

    CD em Jewel Case com booklet com letras e 2 faixas bónus, 1a edição limitada de 50 exemplares.

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1.
BANDA SONORA PARA UM DIA ANORMAL Derreto agora os meus pulmões de barro e este é o som do meu último cigarro se aguentas a tempestade inventas outra vontade despertas a liberdade e aguentas a tempestade se aguentas a tempestade inventas outra vontade despertas a liberdade se aguentas a tempestade inventas outra vontade despertas a liberdade inventas a tempestade cão mordido é cão queimado é cão que ladra num miado lento entre a chuva e a clepsidra equilibrada na balança é cão de caça e cão de guarda é cão que passa e caravana que ladra embebido na saliva de um mosquito roedor na bainha das calças e na fronha mordida do amor na cama seca, num corpo ferido genérico na sua raça cão queimado é cão mordido ó cama de casal quanta da tua areia é manteiga sem sal barrada na sereia de uma praia sem areal
2.
O ÚLTIMO CIGARRO NO ALTO DE SÃO BENTO dantes era crente agora estou dormente contente plo que tenho descrente plo que vejo não me aleijo às escuras não tenho amarguras os meus olhos são fissuras nos teus azulejos não quero o teu beijo não quero a tua forma não te quero de joelhos a limpar o que entornas não faças do que é aquilo que pode ser não me deixes a pé não me faças correr que eu não vou não vou para casa sem um grão na asa sem o bico molhado atestado no pecado ligado ao passado do presente que te dei em vão desfolhei pelas horas que passam pelos cães que ladram pelos dias que ficam e os que não acabam espera passa-tempo cata-vento alto de são bento ao relento é aquilo que tu vês e agora amiúde tenho falta de saúde entre placas de amianto e os pesos que levanto tenho perna fraca tenho mão de vaca tenho a estaca do vampiro suspiro pelo tiro que te mata a fome não és homem não és nada és um beijo de boca amargurada que te come a namorada que também não vale nada e que dantes era crente e agora está dormente e descrente e doente e cansada
3.
02:48
SAMBA MANCO Fogo Grito fogo posto Vou tapando o rosto Tento respirar de dentro para fora de mim A vida não tem fim A vida não tem Nexo Tudo é complexo Não nos basta o sexo Temos de tirar os três ao pobre coração A vida é confusão A vida não tem Pena De quem se condena Sempre a mesma cena Vejo os poderosos que vão cuspindo em mim A vida tem um fim A vida não tem Fado Queixo-me do estado Sinto-me usado Vejo abalar-me tudo tostão a tostão A vida é uma canção Que repete o refrão Água Tanta que me alaga Bato em quem me afaga Tento mergulhar de dentro para fora do mar A vida não tem par A vida não tem Meias Calço más ideias Grito coisas feias Tento respirar do lado negro do pulmão A vida é uma canção Que repete o refrão A vida é uma canção Que repete o refrão
4.
O ANEL DE OUTRA VIDA Pintavas sonhos com sorrisos de paixão Mas carregavas o anel de outra vida E eu sempre fui o refúgio, a guarida De outra vida a que chamavas prisão Tinhas nos olhos a permanente incerteza E a beleza melancólica do olhar Choravas muda ao te sentares à mesa Dessa família a que te foste entregar Eu sempre fui o ombro do teu choro Segunda escolha do teu paladar Sempre soube que te irias entregar Viraste lixo quando já foste tesouro Mas respeito que te sintas obrigada A cuidar dessa família que criaste Quando pudeste fugir não arriscaste Com medo de fazer a escolha errada Agora presa à infelicidade Passas dias sem a chama de viver Não aguentas a agonia de sofrer Condenada a piorar com a idade Pintavas sonhos com sorrisos de paixão Mas carregavas o anel de outra vida E eu sempre fui o refúgio, a guari
5.
07:48
NESSES DIAS bates à porta dizes que o sonho é teu dizes que o sonho é teu e vai ser nosso entras no quarto no escuro eu vejo mal no escuro eu vejo mal mas sinto o cheiro dizes que é hora é hora de acordar é hora de acordar e dar um passo dás-me um abraço e um sorriso a brilhar e um sorriso a brilhar que vai ser meu e teu nesses dias que eu choro e rio faz de conta que é só o cio a marinar no teu pitéu nesses dias que eu rio e choro vou-me embora mas não demoro é só uma nuvem que passa no céu sentas-te à mesa e o vento a murmurar e o vento a murmurar que não te leva danças com alma e as mãos a esvoaçar e as mãos a esvoaçar no corpo todo uivas à lua e eu começo a ladrar e eu começo a ladrar à tua porta deitas-te nua e eu começo a dançar e eu começo a dançar à tua volta
6.
INÁCIO E JOAQUINA Inácio coberto com pele de cordeiro desliza entre as ovelhas descalças calcando as ervas selvagens e os minúsculos cadáveres de animais invisíveis abre a caixa dos fusíveis espreita entre as teias de aranha e o pó secular aparentemente não há nada por reparar Inácio inicia o caminho de volta cabisbaixo e combalido acaba por se atirar ao chão a mão agarrada ao peito o peito agarrado ao coração a sua face em tons de cinza emite expressões carrancudas pautadas por algum desespero Inácio mete a mão no bolso só para se relembrar que está de pijama foi assim que saltou da cama alertado pela esposa que o quadro da luz tinha disparado levantou-se ainda atordoado cobriu-se com o casaco da mulher e fez-se ao mato às escuras com os chinelos enlameados a escorregar a boca seca do cigarro e do digestivo as mãos estaladas pelo frio e entaladas pela lenha a ira dos céus regurgitava-lhe gotas de chuva na careca e a água sabia-lhe a veneno sua esposa, descansada na cama nunca suspeitaria do sofrimento em que Inácio se havia afundado a lama apoderara-se já de todo o seu corpo e entre o formigueiro na barriga o aperto no peito e a cabeça zonza as larvas começavam agora a passear-lhe pela pele enquanto Inácio forçava as mãos contra o coração Joaquina acordou às 4 da manhã e deu por falta do marido a seu lado vestiu o robe e começou a chamar por ele "Inácio? Inácio? Onde andas tu?" Caminhou em direcção à caixa dos fusíveis escorregou na lama e aterrou em cima do seu marido o sangue da cabeça de Joaquina escorria agora para a boca de Inácio e foi assim que ele acordou sufocando no sangue da sua esposa
7.
MADRUGADA FORA começou de madrugada tinha a janela fechada veio o frio o arrepio de uma noite gelada e acordei cheio de sede do outro lado da parede o meu vizinho bebe vinho sozinho na cama de rede grita com o filho e com a mulher está-lhes quase a bater o que é que vai acontecer chega a polícia que delícia corre logo a notícia as velhas saltam da cama de pijama é a milícia da malícia reclamam não consigo dormir com esta barulheira a gritar e a tossir sem dormir a noite inteira o pai de copo na mão o garrafão no meio do chão e a mulher sossegada e o puto esconde a cara o bófia não repara na pancada levada marcada ele não repara anda cá anda cá não te vais embora agora com o vinho eu adivinho onde levas, porque choras anda cá anda cá onde pensas tu que vais se levares aos pares as marcas parecem sinais madrugada fora nem sempre à mesma hora o meu vizinho de cima faz de conta que evapora a mãe grita "anda cá tenho mais que fazer que andar à tua procura mas que neura a noite escura não me deixa ver e eu tenho medo das loucuras em que te vais meter tu não tens cura" do meu quarto já estou farto desta discussão se o puto anda fugido dou-lhe toda a razão dona conceição não vê que o rapaz foi matar o tédio você não deixa dormir ninguém neste prédio é o barulho na cozinha a ladainha da vizinha a campainha igual à minha isto não tem remédio quanto o puto regressa a discussão começa é sempre a mesma conversa a repetir anda cá anda cá que o teu pai 'tá chateado à tua espera no sofá com o cinto arreado anda cá, anda cá toda a noite, todo o dia o pai aos peidos no sofá e a mãe nesta gritaria
8.
DOMINGO DE CHUVA E NEVOEIRO É contigo É contigo que hei-de É contigo que hei-de estar Em qualquer lugar É sozinho É sozinho que hei-de É sozinho que hei-de ver Onde vou morrer É domingo É domingo e não É domingo e não se vê Mas então porquê É contigo É contigo que hei-de É contigo que hei-de ser Tudo o que quiser O vento corre por aí Corre atrás de ti É o sonho É o sonho de ver Sonho de te ver mudar Sem nada a perder É o corpo É o corpo que hoje É o corpo que hoje cai Sem ter mãe ou pai É no osso É no osso duro Osso duro de roer Que hei-de renascer É contigo É contigo que hei-de É contigo que hei-de estar Em qualquer lugar

about

Em 2005 gravei alguns excertos de músicas com um teclado emprestado, pedaços curtos que aglomerei numa espécie de peça que viria a dar origem a "Panorama de Uma Vida Normal", o meu primeiro disco de sempre, lançado em 2006 pela netlabel (editora online) Test Tube.

Gravada no sótão da casa da minha família em Cabeção com um microfone da marca Kyoto (que pode ser encontrado no vídeo "Chamas em Mim" dos Uaninauei), essa construção inicial começou a ganhar imensas formas com a adição de sons do dia-a-dia, como a minha mãe a aspirar o chão, o meu pai a arrumar tralha na garagem, a minha irmã a brincar com a nossa cadela Lina, a TV ligada em programas aleatórios, os foguetes do 25 de Abril, basicamente tudo aquilo que conseguia captar com os dois metros de cabo que ia do microfone à placa de som do computador.

Agora, doze anos mais tarde, dou por mim a reavaliar a importância desse disco para tudo o que se seguiu. Foi com ele que a minha música chegou às pessoas, que passou na rádio, que dei os primeiros concertos a solo, e serviu de audição para entrar nos Uaninauei e, eventualmente, nos Bicho do Mato. Foi, acima de tudo, o impulso moral que precisava para me desfazer dos preconceitos pseudo-perfeccionistas e lançar mãos ao trabalho. O som melhorou, a escrita e a composição também, os horizontes alargaram-se, e o amor pela criação apurou como um romance para toda a vida, ou um vinho em cascas de carvalho francês de que se bebe um gole a cada ano, abraçando a noção de que a fonte não é inesgotável.

Cada disco novo que crio é o meu melhor até à altura do seu lançamento, portanto embora saiba que o próximo será muito melhor que este, é com prazer que partilho convosco o meu melhor disco até hoje.

Embora não queira ditar leis sobre como cada um ouve música, este disco foi criado com o intuito de ser ouvido como um todo, sem pausas, e penso ser a melhor forma de o apreciar. Combina bem com viagens de carro.

Um agradecimento especial a Eddie Santos, Sílvia Monteiro e Ana Gomes que participaram com os seus talentos musicais, Joel Figueiredo pela sua ajuda incansável, à minha família mais próxima, António, Eugénia e Cristina Catarino, e a todos os amigos e familiares que me têm ajudado ao longo do percurso.

credits

released February 3, 2017

Músicas, letras, voz e todos os instrumentos por Daniel Catarino.

com
Ana Gomes: voz em "Nesses Dias"
Sílvia Monteiro: voz em "Último Cigarro" e "Samba Manco".
Eddie Santos: guitarra em "Domingo de Chuva e Nevoeiro"

Gravado, produzido e misturado por Daniel Catarino no Estúdio Manta, Évora, entre Junho e Novembro de 2016.
Masterizado por Joel Figueiredo nos Slowdriver Studios.
Grafismo e fotografia por Daniel Catarino.

(C) Daniel Catarino SPA 2017

Uma edição Capote Música e Slowdriver Productions
www.capotemusica.weebly.com
www.slowdriverproductions.com

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about

Daniel Catarino Porto, Portugal

Daniel Catarino é um cantautor alentejano, residente no Porto. Em canções que fundem a música de raiz e o rock, aborda os paradoxos da humanidade entre a frieza analítica e o calor poético.
Ao vivo, apresenta-se em trio, acompanhado por Manuel Molarinho no baixo e Xinês na bateria.
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